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OPINIÃO ÀS SEGUNDAS | “Viver com Artrose”

Tem dores articulares? Sente rigidez articular, principalmente nas primeiras horas da manhã? Tem mais de 45 anos e é sedentário? Então é possível que um profissional de saúde ou um amigo lhe tenham dito que sofre de artrose(s), uma degeneração da cartilagem articular que expõe o tecido ósseo a uma maior erosão, levando a dores e limitação do movimento.

Geralmente, com esse “diagnóstico” vem a recomendação de proteger mais aquela articulação, não levantar pesos e evitar esforços prolongados para evitar que se danifique mais. Será esta a recomendação mais acertada, à luz daquilo que sabemos atualmente sobre os mecanismos de reparação articular e saúde humana?

Tomemos como exemplo o joelho. O complexo articular do joelho é constituído a nível ósseo por côndilos femorais, patela e pratos tibiais. Nas superfícies de contacto entre ossos temos cartilagem hialina e reforços cartilaginosos móveis, os meniscos. Estas estruturas são nutridas através do líquido sinovial, produzido por glândulas especializadas no joelho. Estas reagem a estímulos mecânicos de estiramento, provocados durante o movimento articular. Mesmo quando já existe dano articular, o movimento é seguro quando feito de forma controlada, sendo um dos processos principais na regeneração e adaptação da articulação. Outro estímulo que vai potenciar a regeneração e deixar a cartilagem mais forte é a carga/peso. A carga exercida sobre a cartilagem e osso vai estimular as células produtoras de cartilagem (condroblastos) a multiplicarem-se e gerarem mais cartilagem, fortalecendo a articulação, em condições normais de saúde. Assim, um joelho mais ativo e com exposição a situações de “stress” controlado vai ser mais bem nutrido e mais forte do que outro com menos movimento, havendo menos potencial de lesão da cartilagem nesses casos e mais resiliência articular.

A nível psicológico, o medo e a ansiedade, provocadas pela dor e falta de função articular podem levar-nos a tentar proteger mais esse lado, não o expondo ao movimento que necessita para se regenerar. Além disso, sabemos hoje em dia que o stress psicológico tem manifestações físicas importantes. O aumento da produção de hormonas como o cortisol, tem efeito na proliferação de fatores inflamatórios endógenos que, quando em excesso, alteram a nossa química articular.

Mesmo quando a alteração estrutural não o justifica, essas substâncias levam a uma hipersensibilidade articular, aumentando a dor e sinais inflamatórios injustificadamente. Isto leva a um efeito bola de neve, que pode ter efeitos a longo prazo, pois a tentativa de proteção articular não vai gerar efeito a nível da dor, levando a mais stress e assim sucessivamente. Facilmente ficamos reféns desta situação se não tivermos um aconselhamento correto e optarmos por tratamentos baseados apenas em medicação anti-inflamatória e analgésica, em vez de movimento e exercício físico com carga progressiva.

Este padrão de comportamento poderá evoluir de forma a ter um impacto importante na nossa qualidade de vida, impedindo-nos de fazer aquilo que mais gostamos, seja passear à beira-mar, brincar com filhos e netos, dançar em festas e mesmo realizar as tarefas do dia a dia, como tratar do jardim e ir às compras. Isto pode levar quem padece de artrose do joelho a isolar-se e evitar situações de exposição social por vergonha ou perda de capacidades físicas de que antes se orgulhava, aprofundando o sofrimento psicológico.

A criação deste sentimento de “solidão” vai também levar a alterações na bioquímica do sistema nervoso, facilitando a cronicidade dos sintomas e sensitizando o sistema nervoso central, levando a que a dor/limitação assuma um papel central na vida daquela pessoa, deixando-a mais débil.

Tendo tudo isto em conta, um processo de artrose depende e afeta muito mais coisas do que apenas o desgaste articular mecânico, estando profundamente conectado à nossa bioquímica e situação psicológica e social.

É importante então que quando confrontados com isto tenhamos uma atitude pró-ativa e não reativa. Com isto quero dizer que reagir contra a dor ou inflamação sem fazer um exame profundo às causas daquele problema na maior parte das vezes não terá o resultado ambicionado, que é ter uma articulação saudável e sem dor, mesmo com sinais de artrose. Um estilo de vida adequado, com enfoque na redução das fontes de stress externo, alimentação apropriada ao nosso nível de atividade e necessidades pessoais, horas de sono suficientes e exercício físico são os fatores que vão determinar a melhoria ou manutenção da saúde articular a nível interno.

A manutenção de um estado de calma e a não catastrofização da situação têm também um papel fundamental na nossa reação enquanto organismo a este problema. Fazer aquilo de que se gosta, não deixando que a dor assuma o controlo da nossa vida e continuar a estar integrados na nossa comunidade apesar da limitação provocada pela artrose é essencial para que não seja algo que diminui drasticamente a nossa qualidade de vida.

A gravidade da artrose depende muito mais daquilo que fazemos dela do que a extensão da lesão estrutural. Viva sem medos e ciente de que os processos de envelhecimento natural não são assim tão lesivos e que, com os cuidados apropriados, não terão impactos negativos sobre a nossa vida. Aproveite cada momento com aqueles que mais gosta sem deixar que a dor lhe retire essa oportunidade.

Caso sinta que a artrose está a causar um impacto exagerado no seu dia a dia consulte um profissional de saúde de confiança e com experiência neste tipo de situações para que possa avaliar e tratar o seu caso individualmente, de forma a garantir os melhores resultados e o regresso a uma vida saudável e mais feliz.

Saúl Martins | Fisioterapeuta

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