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OPINIÃO ÀS SEGUNDAS | “Dor crónica: lesão ou disfunção?”

Podemos muito facilmente comparar o nosso corpo com um computador, em que para realizar uma tarefa ou interpretar um sinal são precisos vários sistemas trabalharem em conjunto e comunicarem entre si. Enquanto vemos um vídeo no computador, precisamos da placa gráfica, do processador… O nosso corpo, ao ver esse vídeo, tem um comportamento muito semelhante. Os nossos olhos são a placa gráfica, o nosso Sistema Nervoso, o processador…

A “chave” do nosso corpo é o Sistema Nervoso, que recebe informações de todas as nossas sensações da periferia (de posição articular, temperatura, pressão, dor) e envia comandos de execução aos nossos músculos (automáticos/reflexos ou voluntários). E este está organizado por vários nervos periféricos que se agrupam em cada nível vertebral (como se de gavetas se tratassem) e que se dirigem até ao córtex, onde é processada a informação e retida na nossa memória.

Uma das funções mais importantes do Sistema Nervoso é processar informação aferente, ou seja, as nossas sensações, mas, em condições normais, 99% dessa informação é descartada. Se assim não fosse, iríamos “sentir” constantemente a nossa roupa no corpo, ou a posição como estamos sentados e que parte das nossas costas tocam na cadeira.

Então, quando é que “sentimos”? Quando o estímulo é mais potente, que é o que acontece quando nos queimamos, por exemplo. Nesse momento, vamos ter um desencadear de respostas reflexas e voluntárias, em que instintivamente afastamos a mão, depois movemos o corpo inteiro, e, talvez, gritar de dor.

Assim, percebemos que o nosso corpo está em constante “leitura” do que se passa à nossa volta, ao mesmo tempo que desencadeia uma série de respostas automáticas e involuntárias. Quando temos uma dor crónica, esta leitura e perceção do nosso corpo vai-se alterando. E é necessária a integração entre o conhecimento sobre a lesão estrutural e o conceito de disfunção originado por ela. A disfunção, na presença ou não de lesão estrutural, vai estar associada a padrões mal adaptativos sensoriais, motores e autónomos.

Neste estado, mesmo quando a lesão estrutural deixa de existir, podemos sentir mais dor do que aquela que é expectável ou até sentir um estímulo que não é doloroso como doloroso, dores irradiadas, dor em “espelho” (uma dor idêntica do lado contralateral), podendo existir estratégias motoras compensatórias e ainda outras alterações.

Assim sendo, é de extrema importância avaliar não só o local onde a dor se faz sentir, mas todo o sistema. Uma boa anamnese, permite-nos perceber o início e o comportamento da dor ao longo da sua duração, ao longo do dia e a sua relação com o exercício, por exemplo. Este é o ponto de partida para uma avaliação de excelência que se irá refletir no resultado do tratamento.

Torna-se errático fazer uma avaliação baseada apenas em exames de diagnóstico e considerar que a presença de uma lesão estrutural é a justificação para o motivo de consulta, e esquecer um Sistema Nervoso que poderá estar em disfunção.

Portanto, existem lesões estruturais que provocam dor, existem lesões estruturais que recuperaram, mas ainda provocam dor, e existem dores sem que exista uma lesão estrutural.

Ricardo Silva | Fisioterapeuta

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