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Opinião | “Será que há bebés que não gostam de dormir?”

São muitas as dúvidas dos pais, em relação a este tema! Dormir é uma necessidade básica e fundamental para o bom desenvolvimento do bebé. Mas porquê que alguns bebés parecem não dormir o suficiente?Há fatores que devemos ter em conta: a idade do bebé, possíveis desconfortos, fases de crescimento/desenvolvimento, rotina familiar e, claro, a individualidade de cada bebé!

Os ciclos de sono do bebé sofrem imensas transformações ao longo do seu crescimento. É sabido que no início têm ciclos muito curtos, facilmente despertam e têm dificuldade em readormecer sozinhos.

Mas será que isto é mau ou estranho? É precisamente o contrário! É uma forma de sobrevivência! Porque, nesta fase, o único mecanismo de defesa que têm é o mais primitivo, que os mantém constantemente alerta, porque sabem que sozinhos não sobreviveriam!

Para além disso, o mundo exterior é “demasiado espaçoso”! Habituados à temperatura e ao limite das paredes uterinas, sentem-se perdidos deitados num berço…

Portanto, os primeiros 3 meses são fundamentais para ajudar a regular os ciclos de sono e para transmitir a segurança, que mais tarde irá permitir que o bebé consiga adormecer/readormecer sozinho.

Muitas mães me dizem preocupadas: “Mas ele só adormece no colo! No meu colo dorme 1h, mas se o pouso acorda passados 10 minutos!”. Mas não há razão para preocupação porque, nesta fase, isto é o que é suposto acontecer! Os braços da mãe, o calor do seu peito e os batimentos cardíacos ouvidos, agora de fora para dentro, são um útero externo! Então, sugiro que usufruam desse momento e que aproveitem para dormir também.

Há um conjunto de alterações que também podem interferir com a qualidade do sono do bebé, normalmente associadas a partos traumáticos (ventosa, fórceps, partos prolongados, cesariana): refluxo, cólicas, tensão generalizada que não permite que o bebé relaxe. Estas alterações mantidas no tempo podem comprometer a qualidade do sono durante anos! É fundamental normalizar!

Quando o bebé passa por um pico de crescimento ou um salto de desenvolvimento, é quase certo que o seu sono será afetado (o crescimento dos dentes pode também ser responsável pelo despertar do bebé). Ou porque acorda mais vezes para se alimentar, ou porque descobriu uma nova habilidade e quer explorá-la, ou simplesmente porque processar cognitiva e emocionalmente todas estas novidades não é um processo fácil!

Outro fator muito importante tem a ver com a rotina familiar: os horários, se as mães têm ajuda, se há irmãos mais velhos… Os horários dos pais ou dos irmãos vão condicionar a rotina da casa e do mais recente elemento, pelo que nem sempre vão conseguir respeitar as próprias rotinas do bebé. Por outro lado, os irmãos mais velhos são sempre um fator extra de estimulação e nem sempre na melhor hora.

A partir de uma certa altura, que pode variar (mas por volta dos 6 meses era ótimo), é importante tentar criar rotinas e mantê-las, respeitando o desenvolvimento do bebé e não a vontade/necessidade dos pais (claro que podemos fugir à rotina uma vez ou outra). Não podemos nunca esquecer a individualidade de cada bebé. Tal como os adultos, temos necessidades diferentes de sono e não devemos fazer comparações.

Só para desmistificar algumas questões que possam estar a passar pela vossa cabeça, vou dar-vos o meu exemplo:

Parto induzido às 12h, 3 horas em trabalho de expulsão, recurso a ventosa e nascimento às 7h da manhã do dia seguinte por cesariana. Ou seja, tivemos direito a tudo! Apesar de saber a teoria e já tratar bebés, na altura ainda não tinha bem noção do que me esperava…

Como é comum, as duas primeiras semanas foram tranquilas, era só mamar e dormir!

Mas depois o mundo parecia ter virado do avesso! A minha filha chorava muito, só sossegava no colo, tinha cólicas… Obviamente eu e o pai, tendo a profissão que temos, já a tínhamos “tratado” com as nossas técnicas, que ajudaram muito, mas naquela altura eramos muito mais pais do que terapeutas e sentíamo-nos perdidos como tal…

Hoje, mais do que nunca, percebo que a minha filha, mais do que tudo, tinha medo, sentia-se insegura, só precisava de um prolongamento de um sitio onde ela esteve confortável, quente, segura e do qual foi arrancada da forma mais abrupta!

Dei e continuo a dar muito colo (atualmente tem 21 meses), dormiu connosco dos 2 aos 4 meses, só adormecia ao colo até aos 8. Desde aí, dorme 10-11h na cama dela e ainda hoje precisa de contacto físico para adormecer. Uma vez ou outra, vem parar à nossa cama, e que bem que sabe!

O que quero dizer com isto é que esta é a nossa realidade. Existirão muitas outras, nem melhores nem piores, diferentes!

O colo e a cama dos pais não são vícios! São conforto, segurança, auto-regulação, alimento, são AMOR!

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Cláudia Costa, Fisioterapeuta | geral@fisioterapiatiagosilva.pt