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Tenossinovite De Quervain no pós-parto

Para muitas mães, o pós-parto é um período delicado, quer do ponto de vista emocional, quer a nível físico. Nesta última vertente, importa salientar que o parto pode provocar diversas alterações que, se não forem tidas em conta, são causadoras de desconforto, mal-estar e mesmo dor.


Sobretudo nos casos em que o parto é feito com recurso a cesariana, o processo provoca uma desorganização visceral que pode desencadear múltiplas consequências. A falta de estabilidade abdominal faz com que as vísceras tenham tendência a baixar a sua posição, o que conduz ao aparecimento de tensão na parte superior dos ombros, causando assim bloqueios na cadeia muscular dos membros superiores.

A consequência da conjugação de todos estes factores resulta numa menor capacidade de movimento da parte distal dos membros superiores, o que, por sua vez, aumenta o atrito e a sobrecarga dos tendões, causando uma inflamação.

A repetição dos movimentos diários efetuados pela mãe enquanto trata do bebé vai exacerbar esse atrito, levando ao limite a capacidade de trabalho do tendão. A partir daqui, o diagnóstico torna-se claro e evidente: tenossinovite De Quervain.

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Por definição, e indo de encontro à descrição feita em 1895 pelo médico suíço Fritz De Quervain, esta patologia resulta de uma inflamação que afeta os tendões do punho que se dirigem para o polegar, nomeadamente os tendões do abdutor longo e extensor curto do polegar, na zona onde atravessam uma bainha fibrosa espessa, que constitui o primeiro compartimento extensor do punho.

Embora o “problema” tenha sido identificado há mais de 100 anos, permanecem muitas dúvidas e incertezas quanto aos motivos que o originam. É comum associar-se a tenossinovite De Quervain a “causas desconhecidas”, embora se aponte o excesso de movimentos repetitivos do punho e da mão, típico de atividades como a prática de jardinagem, de desportos como o golf e o ténis, ou simplesmente pegar inúmeras vezes por dia num bebé, como factores que propiciam o agravamento dos sintomas.


Contudo, regressando ao contexto da descrição acima apresentada, a tenossinovite De Quervain, em especial nos casos em que afetam as mães no período do pós-parto, tem origens que, a meu ver, são claramente identificáveis: alterações estruturais e alterações viscerais.


O tratamento e a prevenção desta disfunção implica a realização de um trabalho de reeducação visceral e da cadeia muscular correspondente, de forma a eliminar estas alterações e as dores que lhe estão associadas.

É importante notar que trabalhar localmente os pontos de dor não é uma solução eficaz. Nestes casos, como em muitos outros, o trabalho do fisioterapeuta deve incidir na origem do “problema” e não nas consequências do mesmo.

Por outro lado, a prescrição de medicamentos analgésicos e, sobretudo, anti-inflamatórios, apenas produzem o efeito de desinflamar os tendões. Mais uma vez, realço o facto de se tratar de uma via que não tem em conta a origem da lesão, mas, tão só, minorizar as dores que esta provoca.

Cerca de um mês e meio após o parto, é recomendável o início de atividade física moderada, constituindo opções válidas os exercícios associados ao Pilates clínico e o exercício dos músculos abdominais, de acordo com o método hipopressivo.


Por Tiago Silva, Fisioterapeuta

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